Viva a Vida

Roda da vida.
Rede da vida.
Teia da vida.
Vida da vida.
Prosperidade. Prospere e compartilhe com a idade.
Em cena, no palco, na intimidade, consigo, contigo.
Ganhar o pão e compartilhar o pão.
Compartilhar em ação o que se sabe, o que se faz e o que sonha.
Olhar para frente, seguir para frente, ora dentro, ora fora.
Enlaces, desenlaces, novos enlaces na via da vida.

Vida que se transforma, vida que evolui.
Linda a lua no céu da primavera.
Que chega com as flores, anuncia o sol e depois os frutos.
Colhe-se o que se semeia. Planta-se princípios e colhe-se o bem.
Anúncio da alegria e do trabalho compartilhado.
Com naturalidade, como humanos que somos.
Falíveis, mas que aprendemos a perdoar.
Incompletos que somos, mas que arriscamos sonhar.
Só envelhece quem gosta de viver. Envelhecer é uma honra.
Envelhecer com dignidade e conviver com todas as idades.
Sabedoria.
Sabe a dor e ria.
Vida que roda, conectada, entrelaçada, interativa, viva a vida.

Maria das Graças Murici, 2011.

No Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas

No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Diferença entre Ter e Ser

Foi necessário tornar-me jovem há mais tempo
Para ter o claro discernimento entre o Ter e o Ser.

Visitei ontem um amigo empresário.
Ele vai servir de exemplo, por ser diferenciado.
Tem dinheiro, tem status, tem prestígio, tem propriedades.
Tem cargo, tem rede de relacionamentos, tem muito conhecimento.
Tem amigos, tem família, tem filhos, tem informação.
Tem conexões com pessoas influentes.
Tem carros importados, tem indústrias e tem imóveis.
Tem títulos, tem placas e medalhas de reconhecimento.
Tem beleza, tem lindos olhos, tem belas roupas.
Tem maquinário e eletrônicos de última geração.
Tem sistemas e redes de telecomunicações.
Tem bela moradia, tem casas de praia e de campo.
Tem a memória de inúmeras viagens pelo Brasil e pelo mundo.
Tem mãe, tem irmãs e tem sólidas lembranças do pai.
Tem educação, tem domínio de idiomas.

Eu o admiro por tudo que ele tem e que cuida com responsabilidade.
Eu o admiro pela seriedade e competência com que zela pelo patrimônio.
Eu o admiro pelas menções honrosas municipais e filantrópicas.
Eu o admiro pelo número de pessoas que emprega e pelo que produz.
Eu o admiro pelas famílias que vivem pelo trabalho por ele propiciado.
Eu o admiro pelo que constrói a cada dia, a cada ano.

Mas o que me faz sentir amizade, amor de amiga, por esse amigo
Não é o que ele tem, mas o que ele é.

Ele é um ser com muita naturalidade e simplicidade.
Ele expressa fina polidez, mas com lastro de caráter.
Ele expressa pureza de uma criança no olhar,
Mas se fere com a ruindade dos oportunistas.
Ele percebe suas limitações e as enfrenta com coragem, com bravura.
Ousa desvendar os próprios fantasmas e realiza a mudança contínua.
Sabe brincar, sabe dançar e sabe amar.
Ama os filhos, ama a vida, ama o mundo, ama sua família, ama os amigos.

Ele sabe o que significa a palavra tudo.
Sabe que tudo não passa pelo ter, mas pelo ser.
O ser privilegia o amor, a vida.
O ser não se apega ao mundo material,
busca a janela dos olhos da alma para se relacionar com os outros seres.

O ser virtuoso tem consciência das próprias limitações e as observa com cuidado
para transformá-las.
O ser ama a si próprio sem vaidade, sem orgulho, sem prepotência.
O ser é espontâneo, é leve, é livre.
O ser é natural, o ser vive, morre, renasce.
O ser é atemporal, é desmaterializado e parte inconsciente.

O ser ouve as próprias intuições e não age apenas com fundamento em razões.
O ser sabe silenciar a paixão, sabe escutar e apaziguar o coração.
O ser cultiva o campo das virtudes, dos valores
E dele retira as ervas daninhas, que são os seus próprios temores.
O ser sabe o que é perdoar, o ser sabe o que é errar, sabe o que é chorar.
O ser sabe o que é caridade, o ser sabe o que é a falta e não age com falsidade.
O ser sabe o que é não julgar, o ser sabe que há inúmeros modos de perceber
e de interpretar.
O ser sabe o que é crescer e não se envergonha por não saber.
O ser não sente medo da solidão porque sabe que ficar a sós diante da imensidão.
O ser sabe o que é a dor e sabe que a cura é possibilitada pelo amor.

Cuidar do ter e não se deixar envaidecer é traço do ser.
Construir e zelar também pelo mundo material é conseqüência do ser essencial.
Sonhar e realizar sonhos grandiosos são características dos seres diferenciados.

Cuidar de si e amar os semelhantes é do ser diferenciado universal.

Maria das Graças Murici – Belo Horizonte, março de 2003.

Cordilheiras de ondas do mar

As ondas do mar vistas da janela do hotel parecem inúmeras cordilheiras em movimento.

Como se atingissem o céu, elas alcançam a altura máxima e se quebram intercaladas, audíveis como solos de instrumentos de uma orquestra que toca sem intervalos.

Batem nas rochas e na pequenina praia ensolaradas nesse final de tarde de domingo.

Espuma alva, mar verde oliva mesclado com verde água.

As folhas dos coqueiros balançam ao vento sem compromisso com o tempo cronológico dos humanos.

Os deuses Netuno, Psyché, Atena, Eros, Zeus e outros dançam ao sabor dos sons da natureza. Na Bahia, Iansã já chega dançando.

Nenhum ser humano visível até a linha do horizonte. Apenas o oceano.

Da janela do hotel vejo o oceano verde e ouço os sons das ondas que se quebram nas rochas e na areia do bairro Rio Vermelho em Salvador, na Bahia de todos os santos.

A brisa do mar, a sinfonia das ondas e os movimentos de Gaia com o Sol anunciam o entardecer e o prenúncio da noite de primavera.

Não sei se olho o mar alto, o horizonte ou as ondas. De um lado ao outro da grande janela de vidro, o mar faz parte do aposento. Com sua pujança, banha o meu ser interior. Ocupo-me com ele.

Hipnotizada pelo balanço das águas do oceano verde que se transforma em prateado, nada quero. Apenas ver-te, verde mar. Apenas sentir-te, linda tarde. Apenas viver-te, bela vida. Amar-te, vida.

A noitinha chega e o mar não altera seu bravo canto.

Hora da prece dominical. Momento de encontro com Deus, que está sempre presente.

O silêncio da paz fez-se presente no espírito. Ele vagueava perdido sem direção e tomou consciência de si ao caminhar ao lado do filho em um lugar desconhecido. Reencarnou-se. A coragem e a vontade de viver tomaram o lugar do desalento. Re-encontrei-me.

Mudança do estado de espírito. Retomada do trabalho, da dança, da vida.

Ontem, na dança, flutuava aos sons de boleros, de valsas, de forró, de tangos. Seu corpo paralelo e em frente ao meu dava-me a referência, além do leve toque da mão nas minhas costas que conduzia o meu corpo. Aprendi a dançar, deixei-me ser conduzida, com leveza, flutuando ao som da música.

Participantes disseram-me no Sul que faço palestras com o corpo em movimento como na dança.

Vejo o entardecer. Deixo-me ser conduzida pela tarde de domingo e me permito o repouso, a tranqüilidade e a consciência do momento presente.

Abro espaço para outras paragens, para a doação sem esperar nada em troca. Por amor.

O mar, a tarde, a prece, a paz e o amor. Cordilheiras de ondas do mar que lavaram a minha alma.

Graça Murici, 2010.